Primeiro Batismo de Capoeira é realizado no município

Dezenas de crianças e jovens do projeto Capoeira Para Todos participaram do evento

Aconteceu na manhã de ontem, 26, na Escola João Úrsulo, o Primeiro Batismo de Capoeira do município de Pedras de Fogo, PB. Os alunos do projeto “Capoeira Para Todos”, criado pelo mestre Marcos Traíra, tiveram a iniciação oficial na cultura da Capoeira.

Capoeiristas de diversos grupos e cidades estiveram presentes na cerimônia. Alunos e mestres de Recife, Campina, Condado, Goiana, João Pessoa, Pitimbu, Aliança Alhandra, Pedras de Fogo participaram do evento.

O Batizado é um momento muito especial, onde o aluno recebe a sua primeira graduação na Capoeira, que é representado por uma corda colorida, cada corda representa um nível. Quando o aluno recebe a sua corda significa que já adquiriu os fundamentos básicos correspondentes a sua graduação e não é mais um aluno iniciante.

O projeto Capoeira Para Todos é realizado pelo mestre Marcos Traíra e demais colaboradores. A Prefeitura de Pedras de Fogo, através da Secretaria de Cultura, apoia o projeto, bem como o Governo do estado da Paraíba: que disponibiliza a Escola João Úrsulo para as aulas nas e quintas e sextas-feiras.

Três mestres estiveram presentes no primeiro batismo de capoeira de Pedras de Fogo: mestre baianinho, de João Pessoa, aluno de mestre Marcos Traíra; mestre Cuscuz, de Recife, mestre de Marcos Traíra; e o fundador do projeto e anfitrião, mestre Marcos.

“A Capoeira é a minha vida, a Capoeira é tudo para mim”, diz mestre Marcos. Marcos Traíra vivencia a capoeira há 35 anos. Ele está desenvolvendo o projeto Capoeira Para Todos, oferece aulas gratuitas na quadra da Escola João Úrsulo para 60 alunos que fazem parte do projeto, 32 deles pegaram a graduação, foram batizados.
Marcos diz ter sofrido com preconceito, muito acentuado nas décadas de 80 e 90, quando ele começou. Relata que era chamado de malandro, sofria discriminação por conta da cultura, mas nunca desistiu da capoeira, nem vai parar.

“Amigos, trabalho, oportunidades, tudo que tenho está de certa forma relacionado com a capoeira. Comecei com quatro anos, já pratico há 20 e estou na Corda Amarela e Branco. Estou no grau de Professor e pretendo chegar a mestre,” diz Marquinhos, filho do mestre Marcos, jovem que cresceu (literalmente) vendo a capoeira acontecer na sua frente.

O Projeto Capoeira Para Todos beneficia crianças e adolescentes como os filhos de Ana Maria e Rosemiro, pais de David e Maria, alunos do projeto há seis meses. Eles conheceram o projeto através da escola, numa visita do mestre Marcos para apresentar cultura aos alunos da rede municipal de ensino e apoiam os filhos nas aulas e eventos.

As crianças gostam muito da prática, aprendem uma cultura, são disciplinados, aprendem a respeitar o próximo, a agir gentilmente, além de desenvolver uma técnica de defesa pessoal importante para proteção em casos necessários. Nas rodas de capoeira do projeto só é permitido alegria, nada de violência.

Mestre Cuscuz veio do Recife para o batizado. Ele conta que Conheceu a capoeira na década de 1970, no Morro da Conceição, na Capital Pernambucana. De lá para cá não parou mais.

Mestre Cuscuz pratica capoeira há 42 anos, conheceu o Mestre coca cola, em 76, que não o ensinou de início, indicando outro mestre para o então iniciante. Ele começou mesmo com o Mestre Pirajá, no Morro da Conceição, na Galeria do ritmo. O mestre Espinhela também é outra referência e acompanha ainda Cuscuz.

“Sofri muito preconceito, fui chamado de malandro, perseguido. No início a capoeira era proibida, se tinha uma roda, a polícia vinha e acabava. Nas Escolas era inconcebível a gente entrar para ensinar, a direção não deixava. Estou na capoeira porque amo, caso contrário já teria desistido”, conta mestre Cuscuz.

Maísa, de João Pessoa, pratica capoeira desde os cinco anos, está há 12 dentro das rodas. Ela, hoje com 17 anos, conheceu através da mãe no serviço CRC, de Mandacaru, bairro da capital paraibana.

Ela conta que no início foi era mau vista. Segundo Maísa, as pessoas diziam que capoeira era coisa de homem e quem praticava fazia vandalismo. “Capoeira é paz, alegria, diversão”, desabafa Maísa.

A jovem conta que já sofreu pressão por parte dos namorados: eles diziam para ela deixar de praticar capoeira, mas Maísa diz que deixou mesmo foi o namorado (risos). Quando criança, ela conta que as mães das suas colegas não queriam que as filhas andassem com ela por preconceito.

Hoje há uma mudança nesta inserção das mulheres na capoeira, mas falta muito ainda para que haja um equilíbrio. No batismo ocorrido ontem foi possível notar a presença de diversas meninas, bem como de alunas de diversas cidades. A coisa está mudando.

Capoeira – Origem

(Heidi Strecker, Especial para Pedagogia & Comunicação do UOL é filósofa e educadora).

“A capoeira é ao mesmo tempo uma luta e uma arte”. Mas você sabia que durante muito tempo a capoeira foi proibida no Brasil? Quem vê crianças pequenas jogando capoeira nas escolas ou rodas de capoeira com a apresentação de grandes mestres nem pode imaginar que essa conhecida forma de expressão das raízes negras era malvista e considerada perigosa.

Para jogar capoeira precisamos de um ritmo, ditado pelo atabaque, pelo berimbau e pelo agogô. Essa música é bem característica. Dois parceiros, de acordo com o toque do berimbau, executam movimentos de ataque, defesa e esquiva. Eles simulam uma luta.

Para jogar capoeira é preciso habilidade e força, além de integração e respeito entre os parceiros. O gingado é à base da capoeira. É um movimento ritmado que mantém o corpo relaxado e o centro de gravidade em constante deslocamento. A partir do gingado surgem os outros movimentos de ataque ou contra-ataque. Os jogadores nunca estão parados e isso torna a capoeira muito bonita de se ver.

História da capoeira

A origem da capoeira data da época da escravidão no Brasil. Muitos negros foram trazidos da África para o Brasil para trabalhar nos engenhos de cana-de-açúcar, nas fazendas de café, nas roças ou nas casas dos senhores.

A capoeira era uma forma de luta e de resistência. Porém, para não despertarem suspeitas, os escravos adaptaram os movimentos da luta aos cantos da África, fazendo tudo parecer uma dança. A capoeira foi ficando do jeitinho que ela é hoje, gingada.

No início do século 19, no Rio de Janeiro, bandidos e malfeitores eram chamados de capoeiras, como registrou o escritor Manuel Antônio de Almeida, em “Memórias de um Sargento de Milícias”. Em 1888, a escravidão foi oficialmente abolida no Brasil. Muitos negros libertos não tinham como sobreviver e acabaram na marginalidade.

Em Salvador, chegaram a organizar gangues e provocar rebeliões. Durante muito tempo a capoeira foi proibida. Na década de 1930 a capoeira já tinha adquirido um novo status em nossa sociedade. O próprio presidente Getúlio Vargas convidou um grupo de capoeira para se apresentar oficialmente no Palácio do Catete.

A capoeira foi liberada. Professores de capoeira da Bahia se tornaram famosos, como os mestres Bimba, Pastinha e Gato, imortalizados nos romances de Jorge Amado. Hoje em dia há muitas formas de jogar capoeira, e a mais tradicional preserva as raízes africanas, como a capoeira angola na Bahia.”

 

Reportagem e fotos de Jairo Alves

 



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